terça-feira, 26 de março de 2013

Treino 49 - Rasgando o chão

São José dos Campos é uma cidade de média para grande, uns seiscentos e cinquenta mil viventes moram por aqui. E a área total do município é até considerável, são quase 1100 km². Mas dá, se você for um corredor medianamente preparado, para atravessá-la de uma região a outra só na pernada. Já aconteceu até de fazermos, se não me falha a memória, durante o carnaval de 2012, um treino passando por bairros das cinco zonas, norte, sul, leste, oeste e central. E não foi nem tão maratônico assim... Rodamos uns vinte e tantos "kaemes" naquele dia de folia.


Tudo é relativo...
Ainda meio detonado dos 15 km da véspera, no tobogã de Barueri, mas com vontade de botar para rodar meu presente de aniversário antecipado, um bom, bonito e baratinho tênis Saucony Cohesion 5, resolvi sair por aí, nesse final de tarde de segunda-feira, rasgando o mapa da cidade. O destino poderia ser qualquer um. Por acaso, escolhi que seria o ponto cardeal oposto ao meu. Sou sulista, moro nessa região da cidade praticamente desde que nasci. Apontei a seta para o norte e fui.

Bússola ou roleta?
Falando especificamente sobre o brinquedo novo, a primeira impressão foi das melhores. Não é leve (pesa 360 gramas) quanto o modelo anterior, o ProGrid Ride, que tive da mesma marca, mas achei bastante confortável. E, como eterno corredor parrudão que sou, não tenho muito como me livrar da necessidade de um bom amortecimento. O Cohesion pareceu eficiente também neste aspecto. Deve ser um bom parceiro nos próximos quilômetros que virão.

#TamoJunto e coeso, mano
Sendo sempre aquele cara que escolhe a cada vez um sabor diferente na sorveteria da vida, não fui pelo caminho mais óbvio e curto. Mas a descida da Cidade Jardim é sempre um bom começo. Não tão íngreme a ponto de castigar os joelhos. Mas comprida o suficiente para dar um bom embalo e varrer para longe qualquer chance de preguicite aguda.

Começou, termine
Atravessei para o outro lado do córrego pelo Viaduto Talim. Mas preferi pegar uma das ruas andinas da Vila São Bento, caminhando um bocadinho rumo à Tamoios ao invés de continuar pela Avenida Mario Covas e subir pelo Anel Viário ou a marginal da Dutra. Caminho mais tranquilo e menos poluído. De vez em quando, bate um resíduo de juízo nessa cabecinha torta.

Dublin? Tá mais para Katmandu...
Cruzei a passarela e segui para a região central pela Francisco José Longo, mil e seiscentos metros de um retão quase plano. Dobrei à esquerda ao final da avenida e fui fazer o "S" da curva mais famosa da cidade, lembrando automaticamente que ali, quase sempre é cenário de treino coletivo. A galera faz falta. Mas correr sozinho também tem seus encantos. Vistas da orla do Banhado, as antenas da zona norte, recentemente conquistadas, piscavam sedutoramente ao longe. E as luzes noturnas joseenses eram quem ditava o meu rumo.

Pela luz
Preferi disputar espaço com os passageiros da rodoviária velha (não adianta, a gente não chama de "terminal central" de jeito nenhum!) e descer pela Rui Barbosa ao seguir pela quase deserta Via Norte. De bando, vá lá, até na madrugada. Sozinho é osso. Atravessei o viaduto ferroviário, sem piuí, e estava oficialmente na zona norte da cidade, apenas sete quilômetros depois de sair da zona sul. Já poderia até voltar. Mas preferi avançar mais um bocadinho pelo território do pão de queijo. Dizem por aí, e não por acaso, que o bairro de Santana é a parte mais ao sul de Minas Gerais.

Do ládicá da serra
Hipérboles à parte, o bairro tem mesmo orgulho de sua origem e a da maior parte de seus habitantes. Tem até a Festa do Mineiro, que não é em homenagem (pelo menos por enquanto) ao mega-atleta Vander Maciel, todo ano lá. Nove em cada dez santanenses terminam frases com "uai!". O décimo, ainda adiciona um "sô!". A única diferença entre Santana e uma típica cidade mineira é que a igreja não fica no alto do morro, mas numa bonita, arborizada e plana praça.

Rezar aqui não engrossa a canela
E foi ali que eu concluí a primeira parte do treino, depois de quase 9 km, aproveitando o começo da semana santa para um discreto sinal da cruz e uma rápida prece, ali mesmo na entrada da Matriz. Não sou carola e tenho lá as minhas diferenças filosóficas com o Vaticano (embora tenha simpatizado bastante com algumas atitudes do novo papa portenho). Mas nunca perdi a minha fé. Minha.

Mais ou menos por aí
Descansei um pouquinho, tomei uma aguinha no bebedouro, fiz que ia comprar uma pipoca ou um sorvete. Mas peguei o caminho de volta, inicialmente caminhando. Sentia uma dorzinha leve, mas chata na panturrilha direita, resquício da prova difícil da véspera. Depois de andar por um quilômetro e meio e ficar meio sacudo disso (demora demais!), resolvi voltar a trotar de levinho. Pegaria a avenida paralela e subiria correndo o outro viaduto, ao lado do Parque da Cidade e parte do morrão de volta até o centro. Alternaria caminhada e trote até o final, somando mais quase três quilômetros e fechando o percurso completo com doze. Já que o pessoal da excursão a Barueri dispensara o pastel da feira, fui matar minha vontade no trailer em frente ao prédio onde tive meu primeiro escritório, no começo nos anos noventa. Mandei logo um de calabresa com queijo, no capricho!

A-do-ro!!!
Foi assim o meu último treininho antes dos 42... anos. Um tiozinho corredor de bem com a vida, na medida do possível.

De sul a norte

segunda-feira, 25 de março de 2013

Treino 48 - Ê, baruêra!

O treino 48 também foi a corrida #4 do ano. Quem diria, hein? O ex-fominha não é folclore, ele existe mesmo. Quem duvidou, se lascou...

Tudo sobre os 15 km de Barueri em:
http://fabionamiuti.hd1.com.br/barueri2013.htm





sábado, 23 de março de 2013

Treino 47 - Sexta Super

Para nós, tudo é pretexto para marcarmos um treininho... Alguém vai fazer aniversário (como é o meu próprio caso, na semana que vem)? Bora comemorar correndo. Tem gente indo embora? O bota-fora é na pista. Voltou? Filho pródigo se "castiga" com passadas. Noivados, casórios, formaturas, batizados, bar mitzvahs... Bobeou, a gente sprinta.

Aqui, fio, é terno, gravata e tênis
Já que na quarta, excepcionalmente, não teve o coletivo da semana (só na madrugada de segunda para terça), aproveitaríamos o encontro para acerto dos honorários do motorista da van, responsável pelo nosso carreto até Barueri no domingo seguinte, para sincronizarmos mais uma vez as planilhas. Eu tinha uma hora de rodagem livre na minha. Montei então um trajetinho à toa (ou nem tanto), em ida e volta pelas duas margens da avenida que mudou de nome faz tempo, mas nunca deixou de ser a Fundo do Vale.

Desculpe aí, Senador Teotônio Vilela
Usufruindo mais uma vez das benesses do Parque Vicentina Aranha, local de concentração, estacionamento, hidratação (apesar de sexta-feira, era também Dia Mundial da Água!), vestiário e cenário para fotografias, entre outras finalidades, largamos com algum atraso, uns dez minutinhos. Culpa minha. Sabe-se lá por que, meu relógio resolveu fazer greve... Não achava o sinal do satélite de jeito nenhum! Só iria começar a funcionar lá pelo quilômetro três.


O pequeno grupo até que saiu unido, com exceção do Edson, que resolveu tirar o atraso da "largada" e correr em ritmo de competição. Treinar é ter o prazer e a honra de compartilhar, mesmo que por apenas parte do percurso, momentos ao lado de grandes craques do asfalto. Do contrário, como seria possível, por exemplo, acompanhar um Wagner?

Já corria muito nessa época... Hoje, então!
Seguimos por movimentadas ruas e avenidas da região central, 9 de Julho, Euclides Miragaia, João Guilhermino e Dolzani Ricardo, em clima total de happy hour. Depois da descida forte até o viaduto, o troco viria na mesma moeda: a subida porrada da Rua Genésia B. Tarantino, no Jardim Paulista. Quem tinha sido o cretino que montou esse roteiro mesmo???

Parece até que gosta...
Faríamos, depois do topo da ladeira, uma triangulação pelo bairro, contornando o grande terreno do batalhão policial onde, à tarde, numa boa e interessante inovação, haviam sido entregues os kits da Corrida General Salgado de Taubaté. Meio estranho ficar fora dela pela primeira vez desde 2006. Mas as novidades negativas, como o aumento no preço e as inscrições em lotes, além da concorrência com a gratuita e mais longa (15 km, contra os cinco ou dez taubateanos) Barueri, pesaram na balança pelo cancelamento da oitava participação consecutiva. Tradições existem, afinal, para serem quebradas.

Quem sabe no ano da Copa...
No vértice inicial da pirâmide, estava a avenida Santos Dumont. No fim dessa, a JK e sua longa descida. Foi bom. Mas também não passaria impune. Até o viaduto da volta, mais uma marretada no mocotó, pela Rua Martins Fontes, no bairro Monte Castelo. Do outro lado do córrego e avenida, rampa ainda pior, comecinho da Sebastião Hummel. Aldo e Wagner abriram distância. Paulo e eu formaríamos nova parceria. Tonico e Estevam, esse último estreando a lanterninha de cabeça, brinde da corrida noturna do sábado na capital, ficariam no outro pelotão. E assim, de dois em dois, passaríamos incólumes pelo território das "primas" (originais ou genéricas), dos choppistas, dos noiados, dos funkeiros e outras criaturas da noite afins. Sexta é sexta...

Dessas, até que dá menos medo...
De volta a regiões menos minadas, com um pouco mais de tranquilidade pelas avenidas São José, Madre Tereza e São João, concluiríamos nosso tour noturno de pouco mais de dez mil metros. A noite friazinha, de começo de outono; e os alvarás de curta duração com as respectivas senhoras não permitiram um chat ao vivo muito longo no pós-treino. Mas foi um bom, divertido e produtivo passeio, fechando a conta dos treinos da semana e preparando as carcaças para as provas dominicais.

Por aí...
Com essa patota, tudo termina (ou começa) em corrida...

Link no Garmin Connect (do Aldo, o meu deu tilt!):

sexta-feira, 22 de março de 2013

Treino 46 - Miles away

É, minha gente, estou ficando velho (na próxima terça-feira, mais ainda)... As têmporas grisalhas não me deixam mentir. Mas, além de ser um tiozinho acima da média de conservação, tento manter sempre viva uma das mais infantis, talvez a mais, das minhas características. A criatividade. Como canta a obra-prima de Toquinho, se me derem dois riscos, eu faço um guarda-chuva. Se forem cinco ou seis retas, então...

Numa folha qualquer
E isso é coisa que, não tem jeito, a gente leva para a vida toda. Não fui safo (ou não soube aproveitar as oportunidades) o bastante para fazer disso o meu ganha-pão, mas ela se manifesta em muito do que faço. Até mesmo em meu esporte. Quem bola esses treinos malucos, na madrugada, na beira da estrada mais movimentada do país, subindo até o ponto mais alto da região, em ziguezague por todas as ruas do bairro e outras boas molecagens? Esse cara sou eu.


Desenhando por aí
Nesses quase dez anos de esporte, já corri em ruas e avenidas, em estradas, asfaltadas ou não, em parques, em pistas, em montanhas, na areia da praia, em trilhas no meio da mata, em pântanos, em linha de trem, em escada de prédio, em galpão de fábrica, em campus universitário, em estacionamento de shopping... Se você pensar em outros lugares, é bem provável que eu também diga, ô, já, claro! Quando me perguntam "onde você corre?", eu só posso responder: no mundo.

Imagine se tivesse verba
Até o mais chato dos treinos, eu tento transformar em uma coisa lúdica, divertida. Foi assim ontem, quinta-feira. A planilha mandava fazer um treinamento em circuito na academia. Em uma semana de finalização de microciclo e consequente pouca rodagem, ao invés de ir para a bicicleta ergométrica ou o transport, decidi que iria correr na esteira. Sim, aquela mesmo, que (quase) todo mundo detesta. Como a única disponível era a que está programada em milhas (e há anos ninguém consegue desprogramar), aproveitei o conceito do treino para fazer uma brincadeira. A da milha mais rápida.

April, 1st
Antes da primeira sequência de exercícios sem intervalos, abdominais, aparelhos e pesos livres, a título de aquecimento, andei três minutos e depois corri a primeira milha. Mal deu para suar, a temperatura ambiente parecia agradável e ajudou. O painel da esteira mostrou 9'06''. Equivalente a 5'39''/km. Bem pianinho.

Quem dera fosse sofisticada assim
Fiz a primeira leva de exercícios, com carga média (nem tanto quanto na série de força, nem tão pouca quanto na de resistência) e quinze repetições de cada. E voltei à esteira "milhonária" para a segunda tentativa. Apertei um pouco mais o botãozinho de velocidade. E fechei em 8'20''. Pace de 5'11''/km. Já melhorando um pouquinho.

Não é exatamente esse, mas é sem parar
Fui para a segunda sequência, mudando alguns exercícios, mantendo os grupos musculares trabalhados. Intervalo zero entre cada estação. E voltei pela terceira vez para a esteira, milagrosamente livre e permitindo a conclusão do desafio. Já que era a última vez, sentei a bota. Não para bater um recorde pessoal ou sair voando do mezanino. Mas o suficiente para conseguir a melhor média do dia. Foram 7'44'' nessa milha final, ou 4'48''/km.

Camiseta ensopada. Missão cumprida. Treino maçante e aborrecido transformado em uma gostosa brincadeira. Coisa de criança grande criativa...

Esse não cresce... Nem eu!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Treino 45 - Por linhas tortas

Não tenho férias, não tenho 13º, não tenho FGTS... Meu único benefício é um horário de trabalho flexível. Entre um cliente e outro para atender, se sobra um tempinho, posso usá-lo da maneira que melhor me convier. Ontem, quarta-feira, excepcionalmente não um dia de treino coletivo (o da madrugada de segunda para a terça já substituíra a contento), por ter um compromisso justamente no horário habitual de correr, tinha que me virar para fazer isso em pleno horário de batente. Antes de sair para a correria no mau sentido.

Mal necessário, leitinho das crianças
Como dizem por aí, o melhor horário para correr é o possível. Ou o que você gosta. Há os corredores matinais; e eu não sou um deles, durmo tarde e, por consequência óbvia, tenho enorme dificuldade de acordar cedo. Existem as criaturas da noite, e essa sim é a minha tribo. Por mim, 99,9% (ou mais) das corridas seriam noturnas. E tem também os exóticos, gente que sai correndo, por exemplo, em pleno horário de almoço. E sem direito a vale-refeição.

Vai uma saladinha aí?
Pensei até em atrasar a refeição e fazer o treino logo depois de deixar meu filho na escola, à uma da tarde. Mas isso bagunçaria demais o cronograma, jogando a hora de almoçar para perto das duas. E me fazendo correr o risco de comer em dobro, ao chegar todo esfomeado. Fui pelo caminho mais seguro. Almocei ao meio-dia e saí para correr às duas da tarde, saciado e de digestão feita (ou quase).

Ok, eu como a pirâmide inteira (de uma só vez)... Mas desconto na base.
Sem muito tempo livre, optei por percurso caseiro, no meu próprio bairro. Quase saí para outro daqueles ziguezagues, mas achei que eles já estavam começando a ficar manjados. Fui por aí sem rumo. Comecei descendo a Cidade Jardim, no sentido bairro-centro. Virei na primeira rua à esquerda e fui fazendo escadinha, dobrando novamente a cada esquina que surgia. De preferência, para o lado onde houvesse descida.

Se eu tivesse grana, mudava para esse outro esporte, em que a subida é de teleférico
Por linhas tortas fui correndo certo, pelas ruas, vielas e avenidas do velho "Satelão". Praticamente só lugares onde eu já havia estado, mas nunca todos juntos. O trajeto em si, era inédito, portanto. Já bastava para fazer do treininho inusitado da tarde algo ainda mais diferente (e interessante). Após serpentear pelo Floradas de São José, setor vertical do bairro, contornei duas das laterais do shopping. Quase entrei nele, mas nunca se sabe o que os seguranças vão pensar de um caboclinho correndo pelo estacionamento... No dia em que a gente marcou um treino saindo de lá, foi o maior bafafá. Fomos chamados por um deles até, imagine, de atletas.

Corra que a polícia vem aí...
Atravessei a Andrômeda e fui para a parte mais antiga do bairro, não estranhamente chamada de Satélite Velho. Velha e cheia de calombos. Para onde se olhe, ou é morro acima, ou abaixo. Desci e fui brincar no parque ecológico (tem até placa com esse nome) que virou o antigo buracão que ficava ao lado do Poliesportivo João do Pulo. Aterrado (há tempos), agora com pista para caminhada e brinquedos para as crianças, poderia melhorar bastante, mas já ficou bem mais aprazível que o antigo lugar onde íamos apanhar argila para os trabalhos de educação artística da Dona Luisona (por aqui, quase todo mundo teve aula com ela nos anos 70/80/90).

Barato não foi. Mas ficou legal.
Depois de uma volta no parque, parei um instantinho no próprio centro para um gole d'água. Resisti à "tentação" de uma volta adicional na pista de atletismo. Subi o morro da Perseu, cruzei novamente a avenida mais movimentada do bairro e voltei a fazer escadinha pela região inicial do treino, agora no sentido inverso e por outras ruas. Completaria os quarenta minutos ou pouco mais de sete quilômetros pelo Passeio Cidade Jardim e a praça ao lado do ginásio de esportes.

Caminho tortuoso
Missão esportiva do dia completa (experiência interessante, correr no mesmo horário esquisito em que deve começar a prova de junho), banho ligeiro e tome mais trabalho. A vida continua. E não pára.

Link no Garmin Connect:
http://connect.garmin.com/activity/286771206

Resumo do treino:


quarta-feira, 20 de março de 2013

Uma maratona qualquer...


Começou. A buzina me diz isso e esse mundo se movendo à minha frente, idem. Mas, epa, espere aí! Tem mais um monte de gente vindo aí atrás também. Será que eu estou preparado? Será que treinei o bastante? Acho que vou desistir... Afinal, foram “só” dezesseis semanas de treino, fora a base. É “só” recomeçar tudo de novo do zero. Mas que desistir, que nada! O importante é terminar, seja com o tempo que for. Mas então por que cargas d’água eu estou indo tão rápido? Menos de quinhentos metros de prova e eu aqui, já com um palmo de língua para fora. Vou diminuir o ritmo... Mas só um pouquinho, porque também não quero chegar lá na rabeira.


Km 1. Algum engraçadinho metido a professor de matemática sempre faz as contas e diz quanto está faltando. Deixe estar, lá pela frente, ele não vai lembrar mais nem quanto é 2 + 2. O ritmo não foi bom. Quero dizer, foi ótimo. Mas foi forte demais. Se eu continuar nessa toada, quebro bonitinho. Mas o dia está tão bonito... Quero dizer, está nublado, cinza, com cara até de que vem chuva aí. Será? Mas está gostoso demais para correr. Acho que vou acelerar. Não, melhor deixar pra lá. Vamos esperar.






Km 5. Já bebi água, mesmo sem sede nenhuma. Pensei em abrir o primeiro sachê de gel, mas a programação era só com o dobro dessa distância. É que o bolso está tão pesado, chacoalhando, que deu vontade de aliviar um pouco o peso. Achei um ritmo mais confortável, embora ainda não esteja correndo dentro da programação. Fiquei a alguns míseros segundos de bater meu recorde da prova curta. Acho que vou quebrar desse jeito.



Km 10. Que maravilha ver a primeira placa com dois dígitos. E pensar que um dia achei essa distância inatingível. Hoje, ela é só o aquecimento. Meu corpo já entendeu o recado, a batalha vai ser dura. Mas está em equilíbrio, adorando cada passada. Já não corro mais feito um cavalo doido, achei o meu “modus correndi” e vou seguir nele enquanto puder. Se estivesse na proa de um navio, abriria os braços e gritaria que sou o rei do mundo.








Km 21. Já experimentei tudo o que tinha nos bolsos e o que a organização me ofereceu. Chego à metade do caminho, ergo um dedo para o céu e enxugo uma lagrimazinha que quer teimosamente se formar. Não é hora de emoção, a jornada é longa e há que se manter a concentração. Mas estou feliz. E inteiro. Se dobrar esse tempo até aqui, chegarei explodindo de alegria. Foco, foco, foco...





Km 30. Ou 32. Ou 35. Estou cansado, mas conheço perfeitamente meu corpo e minhas reações até aqui. Fiz isso nos treinos. Minhas pernas doem, embora meu coração e pulmões pareçam intactos. Escapei ileso de uma ou duas ameaças de cãibra. Acho que a gororoba que me receitaram funcionou. Ou será que isso tudo é psicológico? Deixa pra lá... Falta pouco. Dou uma caminhada para aliviar? Estou louco!?!? Sigo em frente. Sem a toada forte do começo, mas com muito mais valentia.







Km 31. Ou 33. Ou 36. É esse o tal “urso” que monta nas costas? Ah, no máximo é um coala... Ah, se não fosse tão tarde... Ah, se o sol não tivesse saído... Ah, se eu não estivesse com tanta fome...











Km 40. A visão dessa placa é como a de um oásis no deserto. Será miragem? Como custou a chegar... Estou quase lá. Vou acelerar. Não, calma aí, é cedo. Seguro minha onda. Mas não demais também. Entregar os pontos, nem pensar. Que dor é essa na panturrilha? Por que meus pés estão quentes desse jeito? O que estou fazendo aqui, afinal? Nunca mais faço uma besteira dessas...








Km 42. Não existe mais dor. Nem cansaço. Ouço meu nome em timbres desconhecidos e nem me dou conta que é porque ele está impresso em meu peito. Ouço aplausos e incentivos, como se quem estivesse chegando fosse um campeão. E não sou? Embalado, acelero pelos 195 metros finais como se eles fossem os iniciais. Tenho os olhos marejados, o coração disparado e uma vontade imensa de gritar para o mundo inteiro que estou chegando. Há um relógio enorme à minha frente, mas os números que ele mostra já não têm mais tanta importância para mim.





Km 42,195. Cheguei. Minhas pernas e minha alma me trouxeram até aqui. Estou destruído, mas trago no peito uma felicidade e um orgulho que mal consigo explicar. Quando é a próxima mesmo?


terça-feira, 19 de março de 2013

Treino 44 - Comando da Madrugada

Podem me acusar de qualquer coisa nessa vida, menos de ser um cara que se conforma com a mesmice. Por isso talvez eu esteja sentindo tão pouca falta, muito menos do que acreditava que iria sentir, das corridas de rua. O começo de ano, tradicionalmente, costuma ser meio fraco de eventos no calendário. Mas ainda assim, em 2012, a essa altura do ano, eu já havia feito nada menos que dez provas. Em 2013, são apenas três até agora, a quarta deve acontecer no próximo final de semana em Barueri, exatamente um mês depois da última, a Corrida de Verão 100 Juízo & Tribe of Runners.

Você é um viciado (não gosto de usar essa palavra feia em relação ao esporte, mas...) em corridas, daqueles que têm até "síndrome de abstinência" ao não ver seu nome na lista de participantes? Fica a mensagem de esperança: há cura.

Aqui tinha...
É esse espírito inquieto, em eterno contraste e conflito com minha natureza discreta, low profile, que me leva a bolar sempre umas maluquices, no bom sentido da palavra, como essa. Que só saem do papel porque me juntei a uma turma tão maluca quanto... Que compram as ideias, topam quaisquer paradas, incentivam a colocá-las em prática. E, quando parece que eu finalmente vou sossegar um pouco, ficam catucando para que eu invente novas e boas doideiras. O que seria de mim sem essa galera insana (e magnífica)?

O mais normalzinho aí rasga nota de €
Não houve frio, não houve vento, não houve chuva e nem horário avançado que segurasse em casa essa parte da patota nessa véspera de novo feriado, primeira vez que celebramos por aqui o dia de São José, padroeiro e inspirador do nome da cidade. Como a academia estaria fechada no dia seguinte, aproveitei o horário livre antes do treino para adiantar a série de musculação prevista. Tomando, claro, o cuidado de pegar levíssimo nos exercícios para a musculatura inferior.

Vendo pela janela a garoa fina, mas chatinha e insistente, caindo, cheguei a pensar que seria um treino para meia dúzia de valentes. Os comentários na página do evento no Facebook eram desanimadores. Quando enfim deu onze da noite, saí de casa e passei no caminho pela padoca, para garantir a minha parte do lanchão comunitário. Cheguei ao estacionamento do parque, palco de muitos e memoráveis encontros esportivos e por lá só encontraria a princípio o amigo e rei da montanha Wilson. Comentei com ele: opa, se tem dois, já é treino coletivo... E tome esperar a turminha chegar, na maior friaca.

Terra de extremos
Foi chegando um, foi aparecendo outro... Rostos comuns dos treinos de sempre, mas também gente que nunca tinha vindo antes, atraídos pela novidade. Não ligo para o tamanho da lista de presença, não sou poser, não curto mais as fotos que o treino em si. Simplesmente gosto de compartilhar com os meus amigos e companheiros de esporte aquilo de bom que ele tem para nos proporcionar. E fiquei contente ao ver a expectativa superada.

Não foram os trinta e tantos confirmados na "página oficial", mais vinte e poucos que ficaram em cima do muro... Mas os dezessete guerreiros, mais os corajosos cinco acompanhantes que deram as caras por lá, subiram ainda mais no meu conceito. Sobretudo porque não se tratava só de um treino, mas também de uma ação beneficente. Foi solicitado que os participantes trouxessem caixas de bombons, que serão posteriormente repassadas para doação a crianças carentes, por ocasião da Páscoa (como já havíamos feito em outubro, arrecadando brinquedos para o Dia das Crianças). Foram poucas, mas tenho certeza de que de coração. E agradeço demais a quem colaborou.

Bombom custa muito menos que ovo de chocolate; e deixa quem recebe tão feliz quanto
Meia-noite em ponto, depois de breve congresso técnico para descrever o trajeto montado pelo novo, mas já muitíssimo atuante maluco do asfalto Paulo Guimarães (mesmo correndo, e muito bem, na véspera a Meia Maratona de São Paulo, ele apareceria não para treinar, mas para acompanhar de carro os treinandos e registrar belíssimas imagens do evento), deixaríamos o Santos Dumont rumo ao quase vizinho Vicentina. Era madrugada. A cidade era nossa.

Liberdade, liberdade
O grupo começou coeso e compacto seguiria por algum tempo. Mas não dá para manter artificialmente juntas pessoas de ritmos tão distintos. Mourão, Tiago, Giovani, Rafael e Wilson sumiriam na noite a partir da São João. Nosso bloco ficaria, além de mim, com Toninho, Edson, Luis Carlos, Tonico, Wagner (não aquele, outro, estreando conosco) e a visita ilustre do amigo Giba, vindo especialmente de Taubaté (onde NÃO ERA feriado no dia seguinte). E você aí, que mora a duas quadras, debaixo do cobertor, tsc, tsc...


By night
Véspera de feriado é também dia de balada e não faltariam botequeiros & botequetes pelo caminho para estranhar, zoar ou até mesmo elogiar aquela inusitada trupe percorrendo as avenidas da cidade. Muitas figuras bem mais habituais da madruga que corredores, no território deles, o circuito Anchieta - Borba Gato - Luiz Jacinto. Convivência pacífica, felizmente. Deixaríamos a região central pela gelada e cheia de poças Via Norte, passaríamos sem medo pela lateral do cemitério de Santana, retornaríamos pela Rui Barbosa e Olivo Gomes, passando pelo terceiro parque, o da Cidade, da noite. E escalaríamos as pirambeiras, do viaduto e principalmente da Névio Baracho, com o coração na boca. E felizes da vida.

Ladeirão sem fim
De volta ao centro, não faltaria a tradicional passagem pelo calçadão da Sete de Setembro, tradicional região popular de compras, inacessível para corredores durante o expediente comercial, exceto aqueles que levam mercadorias nas mãos (ou bolsos)... E têm seguranças em seu encalço! Passagens rápidas pela R. Floriano Peixoto e Av. Dr. João Guilhermino. E estávamos de volta à Adhemar de Barros, retão onde completaríamos o trajeto. Da turma, restava o Tonico, inteirão depois de correr os 21,1 km paulistanos na véspera. Mas que não resistiu ao meu avassalador sprint final (risos!).







À nossa disposição, depois dos doze quilômetros e uns quebrados, estavam uma torta salgada da D. Ana, um bolo de fubá da D. Marlene (acho eu) e outros bolos, roscas, café (de madrugada não rola), isotônicos, sucos (sem soda cáustica) e até colomba pascal... Que quase foi com papel e tudo goela abaixo! Muito mais calorias que as gastas na atividade. Mas quem se importa? O que vale é a matemática do dia-a-dia. E estar entre amigos, se possível, com a mesa farta. E, mesmo que não, com a mesma alegria de sempre.

Eta, povo glutão!
Ficaríamos ali, no bate-papo, até perto das duas da matina... Mais um pouco, chegava o pessoal da feira e da banca de revistas. Na expressão de cada um, a satisfação de ter feito algo diferente e muito divertido. Disse para o Toninho, repito e assino embaixo. Não troco isso por corrida nenhuma.

Na madrugada
Link no Garmin Connect:
http://connect.garmin.com/activity/286248634

Resumo do treino: