quinta-feira, 21 de março de 2013

Treino 45 - Por linhas tortas

Não tenho férias, não tenho 13º, não tenho FGTS... Meu único benefício é um horário de trabalho flexível. Entre um cliente e outro para atender, se sobra um tempinho, posso usá-lo da maneira que melhor me convier. Ontem, quarta-feira, excepcionalmente não um dia de treino coletivo (o da madrugada de segunda para a terça já substituíra a contento), por ter um compromisso justamente no horário habitual de correr, tinha que me virar para fazer isso em pleno horário de batente. Antes de sair para a correria no mau sentido.

Mal necessário, leitinho das crianças
Como dizem por aí, o melhor horário para correr é o possível. Ou o que você gosta. Há os corredores matinais; e eu não sou um deles, durmo tarde e, por consequência óbvia, tenho enorme dificuldade de acordar cedo. Existem as criaturas da noite, e essa sim é a minha tribo. Por mim, 99,9% (ou mais) das corridas seriam noturnas. E tem também os exóticos, gente que sai correndo, por exemplo, em pleno horário de almoço. E sem direito a vale-refeição.

Vai uma saladinha aí?
Pensei até em atrasar a refeição e fazer o treino logo depois de deixar meu filho na escola, à uma da tarde. Mas isso bagunçaria demais o cronograma, jogando a hora de almoçar para perto das duas. E me fazendo correr o risco de comer em dobro, ao chegar todo esfomeado. Fui pelo caminho mais seguro. Almocei ao meio-dia e saí para correr às duas da tarde, saciado e de digestão feita (ou quase).

Ok, eu como a pirâmide inteira (de uma só vez)... Mas desconto na base.
Sem muito tempo livre, optei por percurso caseiro, no meu próprio bairro. Quase saí para outro daqueles ziguezagues, mas achei que eles já estavam começando a ficar manjados. Fui por aí sem rumo. Comecei descendo a Cidade Jardim, no sentido bairro-centro. Virei na primeira rua à esquerda e fui fazendo escadinha, dobrando novamente a cada esquina que surgia. De preferência, para o lado onde houvesse descida.

Se eu tivesse grana, mudava para esse outro esporte, em que a subida é de teleférico
Por linhas tortas fui correndo certo, pelas ruas, vielas e avenidas do velho "Satelão". Praticamente só lugares onde eu já havia estado, mas nunca todos juntos. O trajeto em si, era inédito, portanto. Já bastava para fazer do treininho inusitado da tarde algo ainda mais diferente (e interessante). Após serpentear pelo Floradas de São José, setor vertical do bairro, contornei duas das laterais do shopping. Quase entrei nele, mas nunca se sabe o que os seguranças vão pensar de um caboclinho correndo pelo estacionamento... No dia em que a gente marcou um treino saindo de lá, foi o maior bafafá. Fomos chamados por um deles até, imagine, de atletas.

Corra que a polícia vem aí...
Atravessei a Andrômeda e fui para a parte mais antiga do bairro, não estranhamente chamada de Satélite Velho. Velha e cheia de calombos. Para onde se olhe, ou é morro acima, ou abaixo. Desci e fui brincar no parque ecológico (tem até placa com esse nome) que virou o antigo buracão que ficava ao lado do Poliesportivo João do Pulo. Aterrado (há tempos), agora com pista para caminhada e brinquedos para as crianças, poderia melhorar bastante, mas já ficou bem mais aprazível que o antigo lugar onde íamos apanhar argila para os trabalhos de educação artística da Dona Luisona (por aqui, quase todo mundo teve aula com ela nos anos 70/80/90).

Barato não foi. Mas ficou legal.
Depois de uma volta no parque, parei um instantinho no próprio centro para um gole d'água. Resisti à "tentação" de uma volta adicional na pista de atletismo. Subi o morro da Perseu, cruzei novamente a avenida mais movimentada do bairro e voltei a fazer escadinha pela região inicial do treino, agora no sentido inverso e por outras ruas. Completaria os quarenta minutos ou pouco mais de sete quilômetros pelo Passeio Cidade Jardim e a praça ao lado do ginásio de esportes.

Caminho tortuoso
Missão esportiva do dia completa (experiência interessante, correr no mesmo horário esquisito em que deve começar a prova de junho), banho ligeiro e tome mais trabalho. A vida continua. E não pára.

Link no Garmin Connect:
http://connect.garmin.com/activity/286771206

Resumo do treino:


quarta-feira, 20 de março de 2013

Uma maratona qualquer...


Começou. A buzina me diz isso e esse mundo se movendo à minha frente, idem. Mas, epa, espere aí! Tem mais um monte de gente vindo aí atrás também. Será que eu estou preparado? Será que treinei o bastante? Acho que vou desistir... Afinal, foram “só” dezesseis semanas de treino, fora a base. É “só” recomeçar tudo de novo do zero. Mas que desistir, que nada! O importante é terminar, seja com o tempo que for. Mas então por que cargas d’água eu estou indo tão rápido? Menos de quinhentos metros de prova e eu aqui, já com um palmo de língua para fora. Vou diminuir o ritmo... Mas só um pouquinho, porque também não quero chegar lá na rabeira.


Km 1. Algum engraçadinho metido a professor de matemática sempre faz as contas e diz quanto está faltando. Deixe estar, lá pela frente, ele não vai lembrar mais nem quanto é 2 + 2. O ritmo não foi bom. Quero dizer, foi ótimo. Mas foi forte demais. Se eu continuar nessa toada, quebro bonitinho. Mas o dia está tão bonito... Quero dizer, está nublado, cinza, com cara até de que vem chuva aí. Será? Mas está gostoso demais para correr. Acho que vou acelerar. Não, melhor deixar pra lá. Vamos esperar.






Km 5. Já bebi água, mesmo sem sede nenhuma. Pensei em abrir o primeiro sachê de gel, mas a programação era só com o dobro dessa distância. É que o bolso está tão pesado, chacoalhando, que deu vontade de aliviar um pouco o peso. Achei um ritmo mais confortável, embora ainda não esteja correndo dentro da programação. Fiquei a alguns míseros segundos de bater meu recorde da prova curta. Acho que vou quebrar desse jeito.



Km 10. Que maravilha ver a primeira placa com dois dígitos. E pensar que um dia achei essa distância inatingível. Hoje, ela é só o aquecimento. Meu corpo já entendeu o recado, a batalha vai ser dura. Mas está em equilíbrio, adorando cada passada. Já não corro mais feito um cavalo doido, achei o meu “modus correndi” e vou seguir nele enquanto puder. Se estivesse na proa de um navio, abriria os braços e gritaria que sou o rei do mundo.








Km 21. Já experimentei tudo o que tinha nos bolsos e o que a organização me ofereceu. Chego à metade do caminho, ergo um dedo para o céu e enxugo uma lagrimazinha que quer teimosamente se formar. Não é hora de emoção, a jornada é longa e há que se manter a concentração. Mas estou feliz. E inteiro. Se dobrar esse tempo até aqui, chegarei explodindo de alegria. Foco, foco, foco...





Km 30. Ou 32. Ou 35. Estou cansado, mas conheço perfeitamente meu corpo e minhas reações até aqui. Fiz isso nos treinos. Minhas pernas doem, embora meu coração e pulmões pareçam intactos. Escapei ileso de uma ou duas ameaças de cãibra. Acho que a gororoba que me receitaram funcionou. Ou será que isso tudo é psicológico? Deixa pra lá... Falta pouco. Dou uma caminhada para aliviar? Estou louco!?!? Sigo em frente. Sem a toada forte do começo, mas com muito mais valentia.







Km 31. Ou 33. Ou 36. É esse o tal “urso” que monta nas costas? Ah, no máximo é um coala... Ah, se não fosse tão tarde... Ah, se o sol não tivesse saído... Ah, se eu não estivesse com tanta fome...











Km 40. A visão dessa placa é como a de um oásis no deserto. Será miragem? Como custou a chegar... Estou quase lá. Vou acelerar. Não, calma aí, é cedo. Seguro minha onda. Mas não demais também. Entregar os pontos, nem pensar. Que dor é essa na panturrilha? Por que meus pés estão quentes desse jeito? O que estou fazendo aqui, afinal? Nunca mais faço uma besteira dessas...








Km 42. Não existe mais dor. Nem cansaço. Ouço meu nome em timbres desconhecidos e nem me dou conta que é porque ele está impresso em meu peito. Ouço aplausos e incentivos, como se quem estivesse chegando fosse um campeão. E não sou? Embalado, acelero pelos 195 metros finais como se eles fossem os iniciais. Tenho os olhos marejados, o coração disparado e uma vontade imensa de gritar para o mundo inteiro que estou chegando. Há um relógio enorme à minha frente, mas os números que ele mostra já não têm mais tanta importância para mim.





Km 42,195. Cheguei. Minhas pernas e minha alma me trouxeram até aqui. Estou destruído, mas trago no peito uma felicidade e um orgulho que mal consigo explicar. Quando é a próxima mesmo?


terça-feira, 19 de março de 2013

Treino 44 - Comando da Madrugada

Podem me acusar de qualquer coisa nessa vida, menos de ser um cara que se conforma com a mesmice. Por isso talvez eu esteja sentindo tão pouca falta, muito menos do que acreditava que iria sentir, das corridas de rua. O começo de ano, tradicionalmente, costuma ser meio fraco de eventos no calendário. Mas ainda assim, em 2012, a essa altura do ano, eu já havia feito nada menos que dez provas. Em 2013, são apenas três até agora, a quarta deve acontecer no próximo final de semana em Barueri, exatamente um mês depois da última, a Corrida de Verão 100 Juízo & Tribe of Runners.

Você é um viciado (não gosto de usar essa palavra feia em relação ao esporte, mas...) em corridas, daqueles que têm até "síndrome de abstinência" ao não ver seu nome na lista de participantes? Fica a mensagem de esperança: há cura.

Aqui tinha...
É esse espírito inquieto, em eterno contraste e conflito com minha natureza discreta, low profile, que me leva a bolar sempre umas maluquices, no bom sentido da palavra, como essa. Que só saem do papel porque me juntei a uma turma tão maluca quanto... Que compram as ideias, topam quaisquer paradas, incentivam a colocá-las em prática. E, quando parece que eu finalmente vou sossegar um pouco, ficam catucando para que eu invente novas e boas doideiras. O que seria de mim sem essa galera insana (e magnífica)?

O mais normalzinho aí rasga nota de €
Não houve frio, não houve vento, não houve chuva e nem horário avançado que segurasse em casa essa parte da patota nessa véspera de novo feriado, primeira vez que celebramos por aqui o dia de São José, padroeiro e inspirador do nome da cidade. Como a academia estaria fechada no dia seguinte, aproveitei o horário livre antes do treino para adiantar a série de musculação prevista. Tomando, claro, o cuidado de pegar levíssimo nos exercícios para a musculatura inferior.

Vendo pela janela a garoa fina, mas chatinha e insistente, caindo, cheguei a pensar que seria um treino para meia dúzia de valentes. Os comentários na página do evento no Facebook eram desanimadores. Quando enfim deu onze da noite, saí de casa e passei no caminho pela padoca, para garantir a minha parte do lanchão comunitário. Cheguei ao estacionamento do parque, palco de muitos e memoráveis encontros esportivos e por lá só encontraria a princípio o amigo e rei da montanha Wilson. Comentei com ele: opa, se tem dois, já é treino coletivo... E tome esperar a turminha chegar, na maior friaca.

Terra de extremos
Foi chegando um, foi aparecendo outro... Rostos comuns dos treinos de sempre, mas também gente que nunca tinha vindo antes, atraídos pela novidade. Não ligo para o tamanho da lista de presença, não sou poser, não curto mais as fotos que o treino em si. Simplesmente gosto de compartilhar com os meus amigos e companheiros de esporte aquilo de bom que ele tem para nos proporcionar. E fiquei contente ao ver a expectativa superada.

Não foram os trinta e tantos confirmados na "página oficial", mais vinte e poucos que ficaram em cima do muro... Mas os dezessete guerreiros, mais os corajosos cinco acompanhantes que deram as caras por lá, subiram ainda mais no meu conceito. Sobretudo porque não se tratava só de um treino, mas também de uma ação beneficente. Foi solicitado que os participantes trouxessem caixas de bombons, que serão posteriormente repassadas para doação a crianças carentes, por ocasião da Páscoa (como já havíamos feito em outubro, arrecadando brinquedos para o Dia das Crianças). Foram poucas, mas tenho certeza de que de coração. E agradeço demais a quem colaborou.

Bombom custa muito menos que ovo de chocolate; e deixa quem recebe tão feliz quanto
Meia-noite em ponto, depois de breve congresso técnico para descrever o trajeto montado pelo novo, mas já muitíssimo atuante maluco do asfalto Paulo Guimarães (mesmo correndo, e muito bem, na véspera a Meia Maratona de São Paulo, ele apareceria não para treinar, mas para acompanhar de carro os treinandos e registrar belíssimas imagens do evento), deixaríamos o Santos Dumont rumo ao quase vizinho Vicentina. Era madrugada. A cidade era nossa.

Liberdade, liberdade
O grupo começou coeso e compacto seguiria por algum tempo. Mas não dá para manter artificialmente juntas pessoas de ritmos tão distintos. Mourão, Tiago, Giovani, Rafael e Wilson sumiriam na noite a partir da São João. Nosso bloco ficaria, além de mim, com Toninho, Edson, Luis Carlos, Tonico, Wagner (não aquele, outro, estreando conosco) e a visita ilustre do amigo Giba, vindo especialmente de Taubaté (onde NÃO ERA feriado no dia seguinte). E você aí, que mora a duas quadras, debaixo do cobertor, tsc, tsc...


By night
Véspera de feriado é também dia de balada e não faltariam botequeiros & botequetes pelo caminho para estranhar, zoar ou até mesmo elogiar aquela inusitada trupe percorrendo as avenidas da cidade. Muitas figuras bem mais habituais da madruga que corredores, no território deles, o circuito Anchieta - Borba Gato - Luiz Jacinto. Convivência pacífica, felizmente. Deixaríamos a região central pela gelada e cheia de poças Via Norte, passaríamos sem medo pela lateral do cemitério de Santana, retornaríamos pela Rui Barbosa e Olivo Gomes, passando pelo terceiro parque, o da Cidade, da noite. E escalaríamos as pirambeiras, do viaduto e principalmente da Névio Baracho, com o coração na boca. E felizes da vida.

Ladeirão sem fim
De volta ao centro, não faltaria a tradicional passagem pelo calçadão da Sete de Setembro, tradicional região popular de compras, inacessível para corredores durante o expediente comercial, exceto aqueles que levam mercadorias nas mãos (ou bolsos)... E têm seguranças em seu encalço! Passagens rápidas pela R. Floriano Peixoto e Av. Dr. João Guilhermino. E estávamos de volta à Adhemar de Barros, retão onde completaríamos o trajeto. Da turma, restava o Tonico, inteirão depois de correr os 21,1 km paulistanos na véspera. Mas que não resistiu ao meu avassalador sprint final (risos!).







À nossa disposição, depois dos doze quilômetros e uns quebrados, estavam uma torta salgada da D. Ana, um bolo de fubá da D. Marlene (acho eu) e outros bolos, roscas, café (de madrugada não rola), isotônicos, sucos (sem soda cáustica) e até colomba pascal... Que quase foi com papel e tudo goela abaixo! Muito mais calorias que as gastas na atividade. Mas quem se importa? O que vale é a matemática do dia-a-dia. E estar entre amigos, se possível, com a mesa farta. E, mesmo que não, com a mesma alegria de sempre.

Eta, povo glutão!
Ficaríamos ali, no bate-papo, até perto das duas da matina... Mais um pouco, chegava o pessoal da feira e da banca de revistas. Na expressão de cada um, a satisfação de ter feito algo diferente e muito divertido. Disse para o Toninho, repito e assino embaixo. Não troco isso por corrida nenhuma.

Na madrugada
Link no Garmin Connect:
http://connect.garmin.com/activity/286248634

Resumo do treino:




segunda-feira, 18 de março de 2013

Sou hipertenso. E corredor.

A humanidade nunca teve em sua história tanto e tão fácil acesso à informação. Em um jornal de domingo ou portal de internet há mais dela, sem entrar na discussão em termos qualitativos, do que uma pessoa dos séculos anteriores poderia obter durante toda a vida.

Cada vez mais ao nosso alcance
No entanto, o que vem sendo feito com toda essa informação? As pessoas quase não leem? Ok, como alguém que escreveu e vendeu por conta própria um livro, sou o primeiro a concordar com a premissa. Mas será que só ligam a TV para saber quem será o eliminado da semana no paredão? E que só usam a internet para descobrir qual é o meme da vez ou o novo Harlem Shake?

Não vi e não gostei
Apesar desses desvios todos, não me entra na cabeça a hipótese da ignorância. Não consigo conceber, quase na metade da segunda década do (nem tão) novo século, alguém alegando desconhecimento sobre os males e doenças que o sedentarismo, a alimentação desregrada, o cigarro e outros péssimos hábitos inevitavelmente trazem.

Bem por aí...
Não falo nem de ter uma assinatura de TV a cabo ou por satélite e assistir aos soporíferos mas válidos programas do canal Discovery Home & Health. Pode-se (e deve-se) questionar a postura manipuladora e a qualidade de boa parte do que é exibido no plim-plim. Mas há também que se separar o joio do trigo. Programas como o Globo Repórter (a edição da última sexta foi um exemplo) e o Fantástico (em quadros como o Medida Certa e os do Dr. Drauzio Varella) são verdadeiras prestações de serviço ao público. E estão ali, gratuitamente, ao alcance de qualquer um.

A questão não é o canal, mas quem (e o que) está nele
Sabemos, portanto, cada vez mais o que fazer. E fazemos na prática cada vez menos. Achamos que o problema é sempre do outro, que somos eternamente jovens e/ou indestrutíveis. Que aquilo nunca vai acontecer com a gente. Até a bomba explodir aos nossos pés. Não tem jeito. Mais cedo ou mais tarde, a vida cobra, com juros, a conta pelas excentricidades, pelos excessos, pelo descaso com a saúde. Que seja mais cedo, então. Diferente do meu próprio caso, com o meu mea culpa.


Sou portador de hipertensão arterial. Por minha própria culpa, consequência de minhas atitudes negligentes para comigo mesmo. Não porque eu não soubesse que cigarro fazia mal, que achasse que comer até quase explodir fosse bonito ou que ter preguiça, a ponto de ir de carro até a padaria da esquina, tivesse algum glamour. Mas porque pensava como muita gente. Que minha saúde era de ferro. Que nada iria acontecer comigo. Doce ilusão.

Tenho uma doença crônica, que vai exigir de mim cuidados especiais pelo resto da vida. Sigo, por recomendação médica, com a medicação. Repito todos os anos a bateria de exames: ecocardiograma, teste ergométrico, fundo de olho, hemograma completo e outros. Faço visitas regulares (deveria ir até mais vezes!) ao meu cardiologista, também corredor, xará e amigo, principal incentivador da grande mudança que salvou a minha pele.

O "inventor" dessa coisa toda
Mas ela, a hipertensão, não me restringe em absolutamente nada como esportista. Se há limites, eles são os do bom senso, que independem da existência da doença. Evito o consumo exagerado de sódio, não só na alimentação do dia-a-dia (embora não abra mão, eventualmente, de um churrasquinho ou feijoada no final de semana!), como também em suplementos e bebidas esportivas que o contêm. Não sou xiita, gosto de uma cervejinha e nunca neguei isso. Mas transformei seu consumo mais em uma exceção (quase uma celebração entre amigos) do que uma regra. Faço, sempre que possível a aferição dos meus níveis de pressão arterial. Adquiri inclusive um aparelho para controle caseiro. Nunca mais cheguei sequer perto daqueles assustadores 180 x 120 de anos atrás.

São esses números a minha grande conquista
Penso na atividade física, seja ela a corrida, a musculação ou qualquer outra, como mais um e não o único aspecto de uma vida saudável. Nunca como um salvo-conduto para fazer o resto todo errado, como uma garantia por si só de saúde e longevidade. Tento fazer do meu esporte algo que proporcione harmonia e diversão. Gosto, mas não vivo em função de resultados ou recordes pessoais, de tempo ou distância. Não me mato por um segundo a menos ou um quilômetro a mais. Não acho, como diz aquela frase feita, que desistir seja para sempre. Sempre há um novo dia e novas chances para quem persevera (e se cuida bem).


Não quero ser o mais rápido e nem o mais resistente. Mas aquele que segue sempre correndo, apesar da pressão.

Matérias relacionadas:
http://www.webrun.com.br/corridasderua/n/recomendacoes-para-corredores-hipertensos/82/secao/medicina

http://www.copacabanarunners.net/perg0901.html

http://globoesporte.globo.com/eu-atleta/noticia/2012/09/saiba-o-que-e-hipertensao-doenca-que-atinge-grande-parte-da-populacao.html

domingo, 17 de março de 2013

Eu tenho orgulho

Eu tenho orgulho daqueles que largam na primeira fila, chegam na metade do meu tempo ou ainda menos e fazem até parecer fácil aquilo que faço com bem mais dificuldade.









Eu tenho orgulho dos que não são propriamente da elite, mas que chegam bem perto disso. Que não são atletas profissionais, mas que lapidam com muito esforço e dedicação aos treinos, o talento que receberam como dom.






Eu tenho orgulho dos que seguem junto comigo, naquela toada mediana e valente de sempre, e que nos transforma, como diz um de meus grandes mestres, nos melhores entre os piores. Daqueles que sabem que talvez jamais cheguem a um pódio, mesmo em suas faixas etárias. Mas que seguem em frente assim mesmo, porque correm pelo simples prazer de correr, não por condecorações.









Eu tenho orgulho daqueles que não têm corpos atléticos, que destoam do arquétipo, que não têm medo do "bullying". Que transformam cada passada em uma batalha pessoal, que transpiram como se estivessem realizando uma das tarefas de Hércules. Que vencem dificuldades, limitações, números como os da balança ou da data da certidão de nascimento. Que surpreendem, que fazem por merecer cada um dos aplausos ruidosos que recebem, lá no final do pelotão.








Eu tenho orgulho de quem corre, do primeiro ao último que cruza a linha de chegada. De todos que ajudam a pintar de multicolorido as ruas. De todos que, juntos, fazem a magia das corridas a cada domingo.


sábado, 16 de março de 2013

Treino 43 - Saindo dos trilhos

Talvez tenha sido só um mau dia (e eles acontecem mesmo, e com qualquer um de nós). Talvez seja o caso de rever a estratégia, experimentar outras em treinos que virão. Tempo para isso, ainda há bastante. Talvez esse tipo de prova que escolhi fazer nem seja para mim, tanto física quanto mentalmente, mais esse que aquele. Sei lá. Vou ver. O fato é que nenhuma das minhas trajetórias rumo a qualquer objetivo no esporte foi linear e certinha. Não teve nada droit au but, como o escudo do Olympique de Marseille, meu time de futebol na França (brincadeira, só tenho uma camiseta que ganhei na internet séculos). Sempre foram linhas tortas, e bota tortas nisso, as que me levaram até os pórticos de chegada.
Direto ao gol nada; comigo, é sempre de rosca
O treino deste sábado era um daqueles fundamentais. Não só no sentido mais óbvio da palavra, de essencial, indispensável. Mas também dos fundamentos da coisa toda. Era para enfim começar a simular aquilo que devo enfrentar na prática no final de junho, se é que a prova das 24 horas na pista vai mesmo ser confirmada... Até agora, nada de notícias oficiais sobre a Virada Esportiva em Sampa. Mudança no comando, sabem como é...

Desembucha, Haddad... Tem ou não tem???
Era chegada a hora de fazer experiências. De tentar correr por bastante tempo no mesmo tipo de habitat e terreno que vou encontrar no PET paulistano. De testar e ver se funciona mesmo na prática o esquema de correr tantas voltas, dar uma paradinha por "n" minutos, retomar o passo como caminhada e repetir tudo de novo, enquanto tiver gás e pernas para tanto. De descobrir como vou me alimentar, hidratar, que tipo de suplementação devo (se é que devo) usar. E tantos outros et ceteras. Abri mão, para isso, até de convites para correr na faixa a Meia Maratona de São Paulo no dia seguinte.

Não acredito que perdi os ovinhos de cera, ops, de chocolate...
Talvez meio ansioso, acordei antes mesmo do despertador tocar. Mas propositalmente não muito cedo. Não adianta nada madrugar nos treinos para fugir do calor, se as provas na prática não acontecem nesses horários. Coloquei na bolsa térmica as garrafas d'água e o gelo, na sacola plástica os sachês de gel e as cápsulas de BCAA. E também uma novidade: um pote bem servido de purê de batatas, feito na véspera pela caprichosa D. Janete, minha senhora. O treino até poderia demorar, porque o rango estava garantido.

Não sei vocês... Eu adoro!
Pretendia começar às nove. Mas antes das oito e meia da manhã já estava na pista. De volta ao Poliesportivo João do Pulo depois de quase um mês, quando estreei na temporada lá, rodando boas vinte voltas, a maior parte delas ao lado do veterano Dutra. Imaginei que acharia o centro vazio, com um ou outro gato pingado girando na terra batida. Não gostei do que vi. Na pista mesmo, pouca gente, só feras como o companheiro de Equipe 100 Juízo Mourão e seu promissor filho. Mas uma patota grande se direcionando à arquibancada para ver uma pelada que estava para acontecer, justo no gramado em torno do qual pretendia correr. Curiosamente, um time masculino infantil enfrentando um feminino bem mais púbere.

Ninguém ganha delas...
Até cheguei a começar, usando as raias mais externas. O relógio surtou e marcou o primeiro quilômetro com 4'01'', talvez fazendo uma média entre a minha velocidade e a do Mourão. Mas, quando a molecada foi para o tapete verde e começou marrentamente a ocupar parte da pista, prejudicando o meu treino e o dos demais companheiros de esporte, desencanei de vez. Era algo importante, que demandava foco total. Fazê-lo com estorvos, muito provavelmente não daria certo. Ao completar o décimo giro, qualquer coisa em torno de 4,2 km em 24'35'', fechei a conta, peguei o carro e fui para o Pavilhão.

Hoje o panorama era outro...
Aliás, Pavilhão não, senhor... Agora o nome é Centro da Juventude. Que já servira de concentração e ponto de encontro para dois treinos coletivos, um no meio, outro no final da semana, ambos saindo dali rumo à cidade vizinha de Jacareí. Mas que ainda não havia me apresentado formalmente sua nova pista de asfalto. Menor que a de seiscentos metros que havia originalmente, antes da grande reforma. Mas maior que a oficial de atletismo. 525 metros na pintura de solo, cinco a mais na medida do GPS.

Nós somos jovens
Com apenas metade do primeiro ciclo previsto feito no JP, a meta era dar oito voltas para inteirar os oito quilômetros, fazer a pausa de 15' (a primeira até parece muito; as demais, pouco), rodar duas vezes caminhando. E depois continuar, fazendo os dois outros ciclos, com dezesseis voltas lançadas cada. O primeiro, ok, sem problemas. Fui ao carro, parado logo ali e abri o primeiro sachê de gel, diluído em generoso gole d'água. Pausei dez ao invés de quinze. Dei as duas voltas andando sem pressa nenhuma. Mas, no que fui voltar a correr... Cara, cadê a vontade?

#JaiminhoFeelings
Dei três míseras voltas capengando, parei no bebedouro, voltei a trotar... Não havia sequer a desculpa da molecada dessa vez, eles estavam isolados na pista de skate. Nem tampouco alguma cobra criada do atletismo regional para deixar o pangaré aqui envergonhado. Talvez eu ainda estivesse cansado da sessão de musculação feita poucas horas antes, na noite anterior, inclusive com exercícios (leves) para os membros inferiores. Ou a sensação de abafamento, com sol escondido por detrás das nuvens, mas um mormaço danado, é que estivesse incomodando.

Qualquer que fosse o motivo, o rendimento era perto de zero. Depois de quinze voltas no total, incluindo as duas de caminhada, ao ouvir o relógio soar pela oitava vez (8,02 km em 54'28''), encostei e parei. Desolado. O que estava acontecendo comigo, afinal?

De mim mesmo, não de contar no blog...
Tentaria, entretanto, uma derradeira cartada para salvar o dia (e o treino). Se não havia dado certo nem na pista de atletismo e nem no asfalto, a terceira e última chance seria nos mil e cinquenta metros da pista de terra do Vicentina Aranha. Nada recomendável, por ter mais que o dobro do perímetro regular do local da prova. Mas melhor que voltar para casa de cabeça baixa. Parei bem perto da portaria, servi-me de umas colheradas do delicioso purê da patroa, tomei mais alguns goles d'água e outra cápsula proteica. E recomecei, mais uma vez.

Terra dos pedregulhos
Não seria nada fácil. O corpo até que aguentava bem, mas a cabeça mandava parar o tempo todo. Daria quatro voltas correndo e uma andando no sentido anti-horário, o mais costumeiro. Inverteria a direção logo depois, trotando mais três e caminhando mais outra. Parecia que estava subindo uma montanha, das bem íngremes, e não correndo no terreno irregular, mas plano, do antigo sanatório. Para completar, deixaria momentaneamente o parque, daria um giro em seu quarteirão, passando pela São João, Madre Paula e Nove de Julho. E finalizaria com mais uma volta caminhando, com sprint na reta final de 150 metros. Mais 12,7 km para conta, em 1h34min (andar, claro, joga o tempo lá para cima).

In & out
Tudo somado, chegaria quase aos 25 km de treino, abaixo, mas relativamente perto dos 26,4 km previstos. Quanto ao tempo, contando com as pausas para descanso, reabastecimento (e batatas) e deslocamentos motorizados, 3h46min (ou 1h12min em repouso) decorridos. Bastante próximo das quatro horas encomendadas. Até que não foi tão desastroso, no final das contas. Resisti, bravamente e inúmeras vezes, ao impulso de abortar o treino. E isso é bom. Só não achei que fosse sentir tanto o confinamento. E isso é péssimo, ainda mais para quem escolheu fazer uma prova desse tipo, de pista.

Mas desistir... É ruim, hein? Estarei lá nas 24 horas (as da Virada Esportiva ou qualquer outra que as substituam), nem que seja para ser o último colocado ou caminhar metade da distância. Se não fui capaz hoje, segue a batalha para que me torne, até o dia da prova.

No máximo adio